Susana Relvas (na fotografia à direita), docente do Instituto Superior Técnico, deu o mote para a discussão com um ponto de situação do sector. Denunciou fraquezas — como o desadequado financiamento da investigação nacional ou a fraca integração de doutorados nas empresas
As tendências do sector, as vantagens de estar no “cantinho da Europa”, a mudança de estratégia para a via marítima e os fenómenos ‘Brexit’ e Trump. Temas tratados e discutidos na terceira sessão das conferências Próximo Nível
Contra factos, há argumentos: a verdade é que Portugal está arrumado num “cantinho da Europa” e isso poderia ser um problema para um sector focado nos serviços de transporte e muito apoiado nas exportações. Mas não: os representantes da logística, incluindo os líderes das principais empresas, sabem como dar a volta ao problema — e transformar aparentes desafios em oportunidades valiosas.
As formas de contribuir para o progresso da área e para a liderança de Portugal na logística foram motes para a conversa na terceira sessão das conferências Próximo Nível, organizadas pelo Expresso em parceria com o Banco Popular. Nesta terça-feira — na mesma manhã em que decorria a reunião em que o Banco Central Europeu decidiu sobre a venda do Banco Popular ao Santander (concretizada no dia seguinte) — quatro representantes reuniram-se para fazer o ponto de situação do sector e deixaram a ideia de que a mudança está no ar, embora nem sempre aconteça tão rapidamente quanto gostariam.
“Em teoria, a posição geográfica poderia não ser vista como uma vantagem competitiva”, admitiu Sandra Augusto, diretora de logística da Volkswagen Autoeuropa, na sessão moderada por João Vieira Pereira, diretor-adjunto do Expresso. Na área automóvel, isto é particularmente verdade: “Os componentes estão maioritariamente na Europa central e de leste, onde se encontram 50% dos nossos fornecedores, e pelo mundo fora; dos clientes dos carros produzidos, menos de 1% está em Portugal.”
Como contornar, então, o problema óbvio da distância, para uma empresa que “dá muito negócio aos operadores” logísticos? “Somos ao mesmo tempo um grande importador e um grande exportador. E temos uma forma de potenciar a localização geográfica: temos bastantes portos com muita relevância, e conseguimos fazer uma exportação direta de Setúbal para a China. Também já fizemos para três portos nos Estados Unidos. Tentámos tornar essa potencial desvantagem numa ajuda, tendo formas de transporte alternativas, e desde há algum tempo procuramos diversificar.”
As novas descobertas marítimas
As saídas alternativas são conhecidas por todos: “A ferrovia e a estrada para Espanha e França estão superlotadas, a precisar de uniformizações nas linhas em que se opera; a tripulação na fronteira tem de mudar porque nem todas falam em inglês, por exemplo”, detalhou a responsável pela logística da gigante alemã. “Quando a ferrovia começou, cada país tinha a sua empresa e preparava-se para o seu ambiente. Não havia visão global da Europa, com uma ferrovia que tem de ser interoperável. Daí termo-nos virado para o short sea: é uma alternativa que compensa a nível financeiro. Mas a mudança de transporte, com a multimodalidade, ainda tem muitos atritos. O que ganhamos no meio marítimo perdemos nas mudanças”, prosseguiu Sandra Augusto. Ao seu lado, Nuno Rangel, CEO e vice-presidente do Grupo Rangel, corroborou: “Há uns anos, a Europa era só rodoviária. Portugal está neste cantinho, e ter uma solução rodoviária para a Alemanha e para França seria fantástico. Havemos de chegar lá, mas ainda há um caminho a fazer.”
São correções — e investimentos, insistiram os oradores — necessárias numa indústria que tem tudo a ver com as exportações, uma área que em 2017 não está a desiludir. “Sente-se o crescimento; na parte do transporte internacional nota-se muito, com a exportação de bens a crescer 17% este ano, quando em 2016 cresceu 0,9%. As empresas portuguesas estão a vender mais para fora, e há um crescimento acentuado das exportações para fora da União Europeia, onde também há margens maiores”, explicou Nuno Rangel, enquanto detalhava alguns dos novos destinos a que o grupo familiar já chega, como as ilhas Fiji ou o Kosovo. “Para Espanha toda a gente faz, mas para outros sítios não é assim tão simples. Por isso é que muitas empresas nos procuram: servimos de consultores para apoiar as empresas que exportam.”
“Brexit vai ter um custo”
“Nos últimos cinco anos em Portugal houve uma diminuição da procura interna, as exportações cresceram e penso que não vão parar — ou espero que assim seja —, o que foi uma oportunidade para nós”, corroborou Rui Gomes, country manager da DHL Supply Chain em Portugal. “Queremos apostar muito no comércio internacional e nos fluxos internacionais.”
Se o crescimento da economia portuguesa é assunto que agrada aos oradores, eles lembram que a oportunidade e a imagem do país lá fora — a atravessar um auge devido ao turismo — deve ser aproveitada para impulsionar outros sectores. Paulo Paiva, presidente da Associação Portuguesa de Transitários (APAT), deixou o alerta: “Acho bastante saudável que haja um crescimento do turismo, que não se pegue no turismo e que de um momento para o outro este seja o salvador da pátria. Sempre que isso acontece dá mau resultado.” E deu soluções: “Essa imagem tem de ser exponenciada para outros sectores em Portugal. As oportunidades passam também pela exportação de serviços. Se tivermos um aeroporto com conexões aos principais aeroportos, passaremos a ser também um exportador de serviços.”
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